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O homem desnudado


A maior depressão do homem surge após o encontro que ele tem consigo mesmo. É assustado se ver. É aterrador olhar a sua carne borbulhando de lepra. É impossível amar a si mesmo quando diante do espelho aparece o homem mau, viu, desprezível, odioso, sanguinário, vingativo e rápido em matar. 

Essa geração causa náusea quando os conselheiros dizem que o homem precisa se amar mais. O princípio da sensatez é o desprezo por si mesmo e o grito lúcido de Isaías: "ai de mim"! O honesto consigo mesmo vai indagar: "Por que ainda vivo? Por que ainda vejo a graça de Deus? Por que o evangelho da salvação é oferecido a alguém como eu?" Esse tipo de homem se assustaria com sua própria presença no céu. Ele não tem tempo de saber da vida alheia. Ele só consegue perscrutar o infinito de seu coração enganoso, a fim de buscar se arrepender de cada pecado que encontrar. Ele não se contenta em saber que existem pecados ocultos em si mesmo. Ele vai atrás desses pecados até a morte. 

Você realmente acha que homens assim têm olhos julgadores para pecados dos outros? Você realmente acha que esses homens emprestam ouvido às maledicências? Eles vão desprezar esses acusadores servos de Satanás, e só conseguirão sentir misericórdia dos fracos e caídos em pecados, mas arrependidos. Ele sente isso porque sabe quem ele é. Ele sabe que se a graça alcançou alguém como ele, quem seria ele para não mostrar compaixão aos outros que são sempre superiores a ele? 

Homens assim, quem o achará? O seu valor está no céu, pois na terra ele é visto e reputado como nada, seja por si mesmo ou pelos outros, pois homens carnais odeiam encontrar alguém que vive a guerrear contra a carne. Homens carnais odeiam ver a prática do amor e da misericórdia. Não foi a toa que Jesus foi tratado como um verme. O amor do Salvador constrangia os homens que não conseguiam amar. A misericórdia de Cristo causava fúria nos homens naturais que têm sua autojustifiça apurada. É por isso que homens assim não são achados hoje tão facilmente. Eles estão em seus claustros, travando uma guerra consigo mesmo. Eles estão lá para não serem mortos e crucificados violentamente pelo mundo. Eles não odeiam a comunhão dos santos. Pelo contrário, eles amam, pois são os poucos momentos de glória na terra. 

Mas ele aprendeu que não se deve passar muito tempo com os homens, mas com Deus. Ele aprendeu que o seu principal chamado é extirpar seus vícios e cultivar virtudes. Ele sabe que as paixões carnais estão em guerra contra a alma dele, e, por isso, sabe que um descanso pode ser fatal. 

Muitos falam que se acham o pior dos pecadores, mas poucos falam isso em choro sentindo a dor excruciante do pecado e o lamento quase que infinito pelos mínimos erros. Muitos dessa geração não sabem o que é lamento; não sabem o que é se misturar ao pó a ponto de se lembrar literalmente de onde veio e quem é. Essa gente só gosta de olhar para o que ganhou e não para o que foi tirado de si. Gostam de abraçar o evangelho da glória sem passar pela cruz. Gostam da ressureição sem a morte. Gostam da ascensão sem a vergonha. Gostam do consolo sem o escárnio. E gostam de ter o olhar de misericórdia sem ser visto como um traidor. 

Esse texto ofende o homem vivo. Ofende aquele que tem sua carne bem alimentada. Ele não gosta de saber sobre a sua fraqueza. Ele não gosta de ser exposto. Mas quer você acredite ou não, esse texto fala de cada um, sem exceção. Todos são miseráveis, e tolos eternamente são os que não se veem assim. Que Deus tenha misericórdia dos 7 mil homens do claustro, e levante logo uma próxima geração de homens mais conscientes de sua podridão. São esses que são dignos diante da confissão sincera de sua indignidade. 

Rodrigo Caeté

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